Crônica "São Paulo, 35 anos", de Mário Prata, publicada no "Estadão" em 28 de janeiro de 2004.
O trecho a seguir, lido pelos apresentadores no programa de estreia da nova temporada do Nossa Língua, exibido em 08/05/2011, foi extraído da crônica “São Paulo, 35 anos”, publicada por Mario Prata em O Estado de S. Paulo,em 28 de janeiro de 2004. Nela, o cronista faz referência a canções famosas da música popular brasileira.
"Alguma coisa também acontecia comigo quando eu cruzava a Ipiranga com a avenida São João. De noite eu rondava a cidade. São São Paulo, meu amor. Parece que eu nasci há dez mil anos atrás. E nunca perdi o ônibus pra Jaçanã.
Quando eu cheguei por aí, em 1966, tinha barzinhos na avenida São Luiz onde se esbarrava no Guilherme de Almeida. O point era a Galeria Metrópole, e se cruzava muito a São João e a Ipiranga. E, acredite se quiser, um bonde subia a Consolação que só tinha uma pista. E só tinham três ladrões na cidade. O Meneghetti, o Sete Dedos e o encantador Bandido da Luz Vermelha (...).
Quando eu cheguei, os meninos Tom Zé, Caetano, e os senhores Adoniran e Vanzolini cantavam a cidade. O Chacrinha balançava a pança, a Hebe era cantora e a televisão era um festival pra ver a banda passar cantando coisas de amor, numa disparada."
No primeiro parágrafo do texto, o cronista faz referência a cinco canções famosas da MPB: “Sampa”, de Caetano Veloso (Alguma coisa também acontecia comigo quando eu cruzava a Ipiranga com a avenida São João.); “Ronda”, de Paulo Vanzolini (De noite eu rondava a cidade.); “São São Paulo”, de Tom Zé (São São Paulo, meu amor.); “Eu nasci há dez mil anos atrás”, de Raul Seixas e Paulo Coelho (Parece que eu nasci há dez mil anos atrás.); “Trem das onze”, de Adoniran Barbosa (E nunca perdi o ônibus pra Jaçanã.).
No final da crônica, ainda se lê: “a televisão era um festival pra ver a banda passar cantando coisas de amor, numa disparada”. Esse trecho faz uma referência a uma famoso festival da MPB que ocorreu nos anos 60. Trata-se do FMPB (Festival da Música Popular Brasileira) de 1966, cuja primeira colocação foi dividida entre duas canções.
Aliás, esse festival assistiu a uma disputa acirrada entre “A banda”, de Chico Buarque, interpretada pelo compositor e por Nara Leão, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, cantada por Jair Rodrigues. Zuza Homem de Mello conta, em seu livro A era dos festivais, que “A banda” havia vencido “Disparada” por sete votos a cinco. Chico, quando soube do resultado, negou-se a receber o prêmio, pois julgava a canção de Vandré muito superior à sua. Daí veio a solução de dividir o primeiro lugar, alegando indecisão do júri.
Na crônica “São Paulo, 35 anos”, Mario Prata ainda escreve: “Quando eu cheguei por aí, em 1966, tinha barzinhos na avenida São Luiz onde se esbarrava no Guilherme de Almeida. O point era a Galeria Metrópole, e se cruzava muito a São João e a Ipiranga. E, acredite se quiser, um bonde subia a Consolação que só tinha uma pista. E só tinham três ladrões na cidade. O Meneghetti, o Sete Dedos e o encantador Bandido da Luz Vermelha (...).
Note que o cronista emprega três vezes o verbo ter, com sentido de existir. Trata-se de um registro considerado popular, muito comum no Brasil e na África, mas que também ocorre em Portugal, onde, aliás, encontra-se esse tipo de construção desde o século XIV.
Em seu Guiade usos do Português, a professora Maria Helena de Moura Neves explica que, de acordo com “as lições de gramática tradicional, o verbo ter não deve ser usado no sentido de “haver” (existencial)”, mas que, atualmente, “a construção é usual, especialmente na linguagem menos formal”.
Como explicou o poeta e professor Frederico Barbosa na entrevista deste programa, quando Drummond publicou “No meio do caminho”, com o famoso verso “No meio do caminho tinha uma pedra”, muitos puristas ficaram incomodados com a ousadia do poeta itabirano, que trouxe para o terreno da Literatura o falar cotidiano das ruas, do comércio, dos bares. Mais de 70 anos depois, na crônica de Mario Prata, o emprego triplo do verbo ter com sentido de existir não causa estranheza a ninguém.
É interessante perceber que, “em tinha barzinhos”, o cronista prefere usar o verbo no singular, como aconteceria com o haver. Já em “tinham três ladrões na cidade”, ele emprega o plural, como aconteceria com o existir. Saiba-se que essas duas formas de flexão do verbo ter ocorrem na variedade popular da língua, embora o singular nos pareça mais usual.
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Professor de Português, desde 1975. É o idealizador e apresentador do programa Nossa Língua, exibido pela TV Cultura, e do programa Letra e Música, transmitido pela Rádio Cultura AM.
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