Neste Casos Sujeitos à Investigação, um sujeito nacionalista – com o curioso nome de Américo – quer saber a origem do substantivo “mídia”, pois, ao assistir a um telejornal português, percebe que nossos patrícios preferem empregar “médias” na hora de designar os meios de comunicação de massa. A explicação é interessante.
De maneira semelhante ao que aconteceu com o verbo “deletar”, a palavra “mídia”, embora de origem latina, chegou ao Brasil pelo inglês dos Estados Unidos.
Em latim, “media” é o plural de “médium”, substantivo neutro que significa “meio, elemento intermediário, mediador”, como explicou o Conselheiro Brás. Nos Estados Unidos, a pronúncia da palavra latina é “mídia”, com som de /i/. Assim, de acordo com o Houaiss, “a palavra e a pronúncia inglesas (em especial, a pronúncia norte-americana) se exportaram, graças ao seu maciço poder de cultura, comércio e finanças, manifestos em particular, no caso brasileiro, nas agências de propaganda comerciais”. Por isso, no Brasil, usa-se “mídia”. Em Portugal, país que parece ser menos influenciado pelas imposições linguísticas estrangeiras, emprega-se a palavra “médias”,com artigo masculino (“os médias”), uma vez que os substantivos neutros do latim se tornaram, na maior parte das vezes, palavras masculinas em português.
Assim, a origem da palavra “mídia” comprovaria a dominação cultural a que estamos submetidos. A língua reflete essa dominação, pois, em vez de o termo ter chegado ao português pelo latim, como seria o esperado, já que nossa língua é neolatina, ele veio pelo inglês, trazendo consigo inclusive a pronúncia estadunidense. É claro que não adianta agora, numa manifestação de suposto nacionalismo linguístico, demonizar a palavra, tentar substituí-la por “médias”, como fazem os portugueses, ou usar sempre “meios de comunicação”. O termo “mídia” existe no português brasileiro, está dicionarizado e registrado no Vocabulário ortográfico editado pela Academia Brasileira de Letras. Mas não deixa de ser curiosa sua origem.
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Professor de Português, desde 1975. É o idealizador e apresentador do programa Nossa Língua, exibido pela TV Cultura, e do programa Letra e Música, transmitido pela Rádio Cultura AM.
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