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Soneto XXII

Neste álamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde não geme, nem murmura
Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,
Sentado sobre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

Às lágrimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’ânsia mortal a cópia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, estátua da dor, se congelava.

Cláudio Manuel da Costa
Obras

( Lisboa,
Livraria Bertrand, s.d. Texto conforme a edição de 1768)

Sobre o autor

 

 

 

Esse é um dos cem sonetos que formam a primeira parte das Obras, publicadas em 1768, na cidade de Coimbra. Para muitos críticos, a produção mais significativa de Cláudio Manuel está de fato nessas composições, que se dividem em pelo menos três séries. A primeira descreve as angústias amorosas e a morte do pastor Fido; os poemas da segunda série tratam do dilema rústico-civilizado; e, ligado às duas séries anteriores, aparece a terceira com o tema da "tristeza da mudança das coisas em relação aos estados de sentimento", conforme as palavras de Antonio Candido. A composição acima, uma das mais perfeitas do livro, pertence sem dúvida à primeira categoria.

No estudo da poesia
arcádica, mesmo a realizada no Brasil, é imprescindível o conhecimento de temas e formas legados pela Antiguidade. Cláudio Manuel da Costa, conquanto tivesse nascido num país descoberto havia pouco mais de 200 anos, estudara em Coimbra, onde se familiarizou com o gosto e a norma literária européia então em voga e, portanto, com os argumentos e assuntos transmitidos pela tradição antiga. Em seus sonetos, são recorrentes os temas do desterro, do carpe diem, do locus amoenus, entre outros que circulavam na poesia neoclássica portuguesa. Contudo, como esperamos mostrar, as regras, motivos e procedimentos fornecidos pela tradição européia sofrerão uma inflexão na poesia de Cláudio Manuel da Costa, que exprimiu em sua obra o conflito típico do artista brasileiro, freqüentemente dividido entre o modelo europeu e as solicitações da realidade colonial.

Como aliar a experiência nacional a uma forma importada dos países centrais, onde se verifica um outro tipo de experiência histórica, constitui uma questão com a qual nossos intelectuais desde pelo menos o século 18 têm de se haver.

No poema em questão, dispõem-se elementos para um quadro que poderia ser bucólico: álamo, arvoredo, Zéfiro, pastor, natureza. No entanto eles não configuram de fato o "lugar ameno" (locus amoenus), a tranqüilidade idílica, como vemos na poesia pastoril do poeta latino Virgílio (70-19 a.C.) e na poesia pastoril praticada no século 18 europeu. Por sobre tais elementos cai a sombra da melancolia do pastor Fido. Afinal, o álamo é sombrio, o arvoredo é fúnebre, e não se ouve nenhum gemido de um suave zéfiro na escura noite. O ar está parado, como que petrificado, talvez porque nele esteja sendo gestada a imagem do segredo, conforme a expressão do poeta. Mas que segredo é esse? Para tentar responder a essa pergunta, é necessário insistir na imagem do pastor melancólico. Em vez de tomar parte na confraternização com a natureza, na sociabilidade amena entre os pastores, ele aparece recuado e solitário:

Sentado sobre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

O crítico literário Sérgio Alcides considera a posição de estar "sentado sobre o tosco de um penedo" o avesso do estilo "sub tegmini fagi", isto é, do estilo que caracteriza a posição de quem está "à sombra de uma faia", recostado a uma aprazível árvore. Essa imagem se tornou modelar desde a abertura da Bucólica I, de Virgílio. Trata-se do paradigma da vida amena e natural, que comunga com a natureza e se opõe ao artificialismo da vida urbana. No entanto o pastor de Cláudio não está suavemente apoiado num tronco de faia; está sentado "sobre o tosco de um penedo", isto é, sobre a superfície não lavrada, não polida de algo já por si bastante duro, bastante rústico. Além disso, ele não está em recreio, mas antes lamenta as suas desventuras e chora copiosamente.

Já é possível constatar algumas dissonâncias nesse soneto em relação ao que seria a convenção da poesia arcádica européia: as imagens da escuridão e a melancolia. Esta tira o pastor do convívio harmonioso com os homens e aquelas impedem a pintura de um quadro realmente bucólico, pois este exigiria tons mais claros e suaves. Dois ideais prezados pelo Arcadismo são, portanto, contrariados nesse poeta que era dos mais disciplinados e versados nos preceitos metropolitanos: o campo como lugar de harmonia e felicidade e a visão simplificada dos homens e das relações sociais. Ora, num soneto, (...) Em que apenas distingue o próprio medo / Do feio assombro a hórrida figura(...), é justo dizer que a natureza não é espaço de serenidade, mas de imagens horripilantes. Do mesmo modo, a presença poderosa da melancolia indica precisamente o contrário de uma simplificação das relações humanas. Para a alma melancólica o burburinho humano pode trazer um terrível desconforto. Na verdade, as imagens sombrias do poema são projeções de um eu que não vê nem mesmo na natureza conforto para seus flagelos. Não estamos, portanto, diante da harmonia com a natureza e os homens tal como é estilizada em Virgílio e mesmo em tantos poetas europeus contemporâneos de Cláudio. Estamos diante de um paradoxal pastor reflexivo, pois a melancolia costuma se associar à reflexão pelo ensimesmamento continuado.

Por que é paradoxal a figura de um "pastor reflexivo"? Ora, porque a convenção pastoril servia ao ideal de naturalidade, que pressupunha uma sociabilidade mais agradável entre os homens, e a melancolia introduz uma nota dissonante, que impede a formação dessa feliz comunidade. Os pastores de Cláudio não são muito sociáveis e afeitos ao trato com as pessoas, pois muitas vezes se afastam das brincadeiras e das festas campestres e se isolam num canto, sentando-se sobre um penedo, sobre uma pedra, e desfiando os seus infortúnios. Isso indica que as relações humanas foram perturbadas.

Nessa poesia vemos um topos característico da literatura culta européia: a metamorfose. A transformação de homens em plantas, minerais e animais, e vice-versa, era um lugar-comum transmitido pela literatura greco-romana. Mas em Cláudio, assim como a figura do pastor foge um tanto às normas estabelecidas no Arcadismo, assim também a metamorfose parece adquirir uma feição singular. Vejamos as últimas estrofes do poema analisado:

Às lágrimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D'ânsia mortal a cópia derretida;

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, estátua da dor, se congelava.

A pedra, comumente ligada à idéia de fixidez, de alicerce, daquilo que não se altera, é aqui, no entanto, abalada. Enquanto Fido chora a sua desventura e tende para a petrificação, tal é a dor que nele se desata, a rocha, comovida, tende a ganhar a mobilidade própria dos homens. Fido se congela, e o mineral se derrete. Daí o poeta dizer: "A natureza em ambos se mudava". O pastor se mineraliza, e a pedra se humaniza, numa manifestação do abalo que tomou conta dos elementos da paisagem. Ocorre, portanto, metamorfose em mão dupla.

Ora, um pastor transmudado em mineral indica que o ideal arcádico de uma idade de ouro, na qual se restabeleceria a convivência pacífica entre os homens, foi deixado de lado. Pois aqui se regride a um estágio anterior ao humano, a um estágio anterior à sociabilidade.

No "Prólogo ao leitor" que antecede os sonetos de Cláudio, lemos:

Não permitiu o Céu, que alguns influxos, que devi às águas do Mondego, se prosperassem por muito tempo: e destinado a buscar a pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado, aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer, que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância! Que menos, do que abandonar as fingidas ninfas destes rios, e no centro deles adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a este clima os corações de toda a Europa! Não são estas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos. Turva e feia a corrente destes ribeiros, primeiro que arrebate as idéias de um poeta, deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a terra que lhes tem pervertido as cores.

Aqui está formulado claramente o drama do poeta, que teve de retornar à pátria e reafinar a lira conforme a "grossaria dos seus gênios". Os rios daqui, turvos e feios, não são as "venturosas praias de Portugal". A atividade da mineração, então sustentáculo da economia em Minas Gerais, implicava por certo um arruinamento da paisagem. O Brasil, na condição de colônia de Portugal, adquiria para a sensibilidade aguçadíssima de Cláudio Manuel da Costa o ar de uma terra devastada, para a qual se encaminhavam levas de europeus, especialmente portugueses, com a ambição de enriquecer o mais rápido possível. Isso mais o fato de que a capitania de Minas Gerais tinha de repassar para a Metrópole a maior parte de sua riqueza na forma de impostos indicavam ser a região mero lugar de passagem, enfeado como costumam ser aqueles sítios voltados apenas para o lucro e nos quais a beleza é vista como inútil. Minas Gerais era um pouco a Serra Pelada daquele período.

Se a convenção pastoril e o cenário campestre previstos na literatura culta da época pareciam, num primeiro momento, apropriados para um lugar em que, ao contrário da Inglaterra, não houvera revolução industrial, saíam ao mesmo tempo modificados na obra de Cláudio. Embora em certo sentido estivéssemos muito mais próximos da natureza do que os europeus, que já a idealizavam e colocavam como instância a que a sensibilidade refinada deveria aspirar, nossa natureza era, por assim dizer, revirada e saqueada de uma maneira talvez mais visível, menos acobertada, do que a natureza nos países em que houvera industrialização maciça.

A paisagem em Cláudio é muito mais tosca do que amena, e às vezes pode ganhar cores mortiças, como no soneto que estamos analisando. Um soneto absolutamente sombrio, no qual o tempo parece ter se congelado também, tal como o pastor Fido.

Por fim, qual será "a imagem do segredo"? O poema não configuraria, todo ele, essa imagem, arrematada por uma espantosa metamorfose? Não é possível, neste espaço, responder a essa questão de maneira satisfatória, pois haveria muito mais a dizer dessa magnífica composição, em que a dicção clássica por vezes é crispada por procedimentos barrocos, como o hipérbato. De todo modo, procuramos levantar ao menos alguns aspectos que nos ajudem a refletir sobre o que constitui o segredo dessa grande poesia.


Cláudio Manuel da Costa
Um dos maiores poetas do Arcadismo brasileiro, Cláudio Manuel da Costa nasceu a 5 de junho de 1729, em Vargem de Itacolomi, Minas Gerais, e morreu a 4 de julho de 1789, em Ouro Preto. Seus pais eram portugueses ligados à mineração. Estudou com os jesuítas no Rio de Janeiro e mais tarde se formou em Direito na Universidade de Coimbra, em Portugal. Voltou para Vila Rica (atual Ouro Preto) em 1753, onde trabalharia como advogado e minerador (herdara bens fundiários) e também assumiria cargos administrativos no Governo da capitania. Sua participação na Inconfidência mineira parece ter sido lateral, o que ainda assim lhe valeu um interrogatório, no qual parece ter sofrido psicologicamente e teria comprometido amigos. Suicidou-se logo após num cárcere da Casa dos Contos, onde fora encerrado, com 60 anos de idade.