volta - Alô Escola
Logo Guerra Fria
A questão cultural no mundo

(Continuação)


O realismo socialista

A partir dos anos 30, a imagem que a União Soviética fazia de si mesma era moldada por uma corrente estética denominada Realismo Socialista. Ela surgiu durante um congresso de escritores em 1934, com a participação de Máximo Gorki. A corrente deveria consagrar a arte como canal de expressão dos princípios marxistas. Os artistas passaram a buscar inspiração no folclore nacional e na vida simples do operário e do camponês. Em pouco tempo, no entanto, as diretrizes do congresso tornariam-se instrumento político nas mãos de Josef Stalin.

O Realismo Socialista condenava a arte abstrata, considerada um símbolo da decadência capitalista. Também não aceitava o jazz e outros gêneros musicais que incorporavam a sensualidade. Para os soviéticos, essas manifestações artísticas evidenciavam uma sociedade deteriorada. A rigidez na vida cultural soviética, no entanto, não afetou o exercício de uma das atividades em que os russos sempre alcançaram níveis de excelência: a dança clássica. O Balé Bolshoi, uma das companhias de dança mais tradicionais do mundo, manteve suas produções de obras clássicas do século XIX, e apresentava-se com grande sucesso nos palcos dos países ocidentais.
Foto 4
O socialismo se representando em arte
"O Realismo Socialista tinha, sobretudo, uma função política. A arte realista socialista tinha a função de glorificar o sistema soviético, em particular o seu líder, que até 1953 era Josef Stalin. Inúmeros quadros, filmes e livros dessa época mostram Stalin como um sábio, o Pai dos Povos, um homem justo, acima do bem e do mal.O Realismo Socialista eliminou a separação entre arte, partido e Estado.

Nesse sentido, é muito parecido ao que Hitler fez na Alemanha."

José Arbex Jr.
jornalista


O self-made-man nos Estados Unidos

No lado capitalista, as coisas tomaram um rumo diametralmente oposto. Nos Estados Unidos, o ideal de felicidade tem sido, há muitos anos, quase sinônimo de riqueza e bem-estar individuais. É o chamado ideal do self-made-man. Um dos primeiros símbolos desse ideal foi o automóvel. Para muitos americanos do início do século não havia felicidade sem um carro na garagem. Um homem, em particular, teve grande influência na construção do modo de vida americano: Henry Ford, o criador da linha de produção em série do automóvel.

Na América sempre se valorizou o esforço individual em busca da felicidade, recompensado pelo consumo de bens que podem tornar a vida mais amena e prazerosa. O apego aos bens de consumo foi levado ao extremo com o 'boom' industrial logo após a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos saíram-se vencedores do conflito, e com uma indústria trabalhando a todo vapor. Algumas estimativas calculam em 9 milhões o número de automóveis em circulação pelas ruas e estradas da América, em 1920. Na época, o rádio ocupava lugar nobre da sala de estar dos lares norte-americanos. A revolução tecnológica começava a ganhar corpo junto com as transformações no universo das artes e espetáculos.

"Depois da Primeira Guerra Mundial surgiram uma nova geração e novas coletividades, que passaram a integrar a cena histórica e que criaram uma cultura toda baseada em representações do novo, do moderno, do jovem.
Nesse sentido, sentiam-se muito mais expressos nos seus valores através de novas formas de música fortemente ritmadas - ou sincopadas -, como o jazz das big bands e das jazz bands. Ou através de uma forma de arte que representava plenamente o milagre mecânico do século XX, como era o cinema. Houve também o 'boom' das atividades esportivas nesse período (...) e o advento das danças modernas, representadas por figuras Foto 5
O retorno natureza na dana
como Isadora Duncan, trazendo a idéia de um retorno à natureza e à condição espontânea do corpo. Ou como Josephine Baker, lembrando as energias mais profundas que nascem das pulsões eróticas e da agressividade.(...) Nesse sentido, o que a sociedade pretendia era ver-se a si mesma como grande espetáculo. Em todos os níveis do cotidiano houve mudanças. Surgia uma nova sociedade de consumo. (...) A sensação é de que se vivia um tempo de euforia, que nada mais tinha a ver com o momento pregresso, o momento de atraso representado pelo século XIX e pelas sociedades fechadas anteriores."

Nicolau Sevcenko
historiador da cultura - USP

Nos anos 20, as novas dimensões da estrutura econômica e cultural, ao lado da simplificação do serviço doméstico, ampliaram a presença da mulher num mercado de trabalho cada vez mais dinâmico e competitivo. Os costumes também se modificaram: as mulheres começaram a se livrar das roupas pesadas e cheias de enfeites, adotando saias e vestidos mais curtos, simples e sóbrios.Já temos, até aqui, os principais elementos culturais e ideológicos que marcariam as imagens dos dois blocos econômicos durante toda a Guerra Fria. Do lado soviético, a ênfase estava no controle estatal dos meios de produção, no desenvolvimento das máquinas, na concepção coletiva de vida. Do lado ocidental, a atenção maior estava no indivíduo, no mercado de consumo, na busca individual da felicidade.


Surge a Televisão

Todas as diferenças entre os dois blocos, no entanto, podem parecer menores quando entra em cena a força da TELEVISÃO: o interesse dos governantes pela TV sempre foi o mesmo, de Washington a Moscou.
Foto 6
Nos anos 30, a TV marca uma nova era
O advento da televisão, no final dos anos 30, modificou completamente as formas de comunicação no mundo. Muitos historiadores e estudiosos de comunicações acreditam que a chegada da TV marcou o início de uma nova era. A transmissão instantânea da imagem a distância combinava muito bem com as necessidades de uma sociedade cada vez mais consumista, no lado ocidental.
E servia também aos propósitos explícitos de veículo de propaganda política, no lado socialista. De um modo geral, governantes dos dois lados sempre apreciaram o uso da TV para seus pronunciamentos. Quando os soviéticos lançaram o Sputnik, o primeiro satélite a girar em órbita da Terra, em outubro de 1957, o pequeno aparelho levava uma única mensagem: "O comunismo será o grande vencedor".

Em 61, Yuri Gagarin foi recebido como herói em seu país ao se tornar o primeiro homem a viajar numa nave em órbita da Terra. A resposta norte-americana veio no final da década. Em julho de 1969, Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar o solo da lua. E, consolidando a conquista aos olhos do mundo, fincou em solo lunar a bandeira dos Estados Unidos. O evento foi transmitido ao vivo pela TV, para uma audiência estimada em 1 bilhão de pessoas.

Dos anos 50 até meados da década de 80, a propaganda soviética dava destaque à miséria existente nos países ocidentais. Apontava a prostituição, a pornografia, o narcotráfico, o desemprego e a corrupção como sintomas típicos da decadência da sociedade capitalista. Esses desvios não eram admitidos oficialmente pela União Soviética. Os filmes da época, quando se referiam ao próprio país, mostravam imagens idealizadas de um povo feliz. No Ocidente, a produção de imagens durante a Guerra Fria foi um processo mais complicado e contraditório. A própria natureza liberal dos regimes políticos dos Estados Unidos e da maior parte da Europa não deixava espaço para o surgimento de um fenômeno cultural restritivo como o Realismo Socialista.

Volta | Continua