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A Questão Cultural no Brasil

Em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, era lançado o primeiro liquidificador no Brasil. Mas, um momento! O que um liquidificador tem a ver com o nosso assunto, a Guerra Fria? Tem tudo a ver. Liquidificador, televisão, máquina de lavar, torradeira, aspirador de pó... Enfim, o uso da tecnologia na vida cotidiana refletia, e ainda reflete, um determinado modo de vida, um ideal de felicidade inspirado na sociedade consumista surgida nos Estados Unidos nos anos 20. Foi justamente a partir desse modo de vida típico do capitalismo que se desenvolveu a mensagem ideológica ocidental durante a Guerra Fria. Uma mensagem que se propagou por todo o mundo capitalista.


Ideologia do consumo

Em todo o mundo fora da esfera socialista, comprar eletrodomésticos e automóveis tornou-se parte de um projeto de vida. O Brasil recebeu em cheio o impacto da ideologia consumista e da revolução tecnológica norte-americana. Nossa classe média, principalmente, adotou o sonho do carro na garagem e consumiu em larga escala a fantasia exportada por Hollywood.
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Cena de São Paulo nos anos 20
Essa realidade teve origem nos primeiros vinte anos do nosso século. Se o Rio de Janeiro era a capital política e administrativa do país, São Paulo foi a metrópole que mais rapidamente sentiu o impacto dos novos tempos. Recebeu a primeira linha de montagem da Ford no país, em 1919. No início dos anos 20, alguns bairros da capital já contavam com um sistema de transporte coletivo.
Na gestão de Washington Luís como presidente do estado de São Paulo começaram a rodar os primeiros carros a gasolina. Os rapazes de famílias ricas passeavam com seus automóveis causando medo e apreensão entre os pedestres. Em 1922 foram instaladas em São Paulo novas linhas postais, telegráficas e telefônicas. Em janeiro de 1924, a cidade viu nascer a Rádio Educadora, criada para dotar o estado de uma emissora com fins culturais. Àquela altura o Brasil já contava com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em abril de 1923. A capital paulista contava, então, com 14 salas de cinema e seis de teatro. Na época, era a segunda cidade mais habitada do Brasil, mas abrigava sozinha um terço da mão-de-obra industrial do País, empregando em suas fábricas cerca de 140 mil operários.


As novas tecnologias e a arte

Os avanços trazidos pelas novas tecnologias modificaram o cenário urbano. A cidade começou a se verticalizar e ganhar seus célebres arranha-céus, como o Edifício Martinelli, construído no início dos anos 30 a partir das concepções urbanísticas de Nova York e Chicago. IMAGEM
Ed. Martinelli: arranha-céu paulistano
A chegada das novas tecnologias industriais foi notada também pelos artistas brasileiros. Eles sentiram o início de uma nova era na história da humanidade, cheia de inovações tecnológicas. Ao mesmo tempo, levantaram uma questão central: onde estaria a identidade nacional nesse redemoinho de novas possibilidades, nas mudanças radicais que afetavam o mundo? Essas inquietações estimularam o surgimento da Semana de Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e todos os artistas envolvidos na Semana de 22 tinham, em geral, uma formação intelectual e técnica muito mais européia do que americana. Mas foram obrigados a dialogar com a realidade tecnológica exportada pelos Estados Unidos.

"A afirmação de que a Semana de Arte de 22 foi o evento mais significativo na história cultural brasileira acaba por acobertar alguns outros significados que podem ser associados ao Modernismo. Para além de ser um capítulo na história da nossa literatura, das artes plásticas, da música, o Modernismo foi significativo para a composição, para a fundação de uma nova identidade nacional. Os artistas, os participantes da Semana de 22 procuraram incorporar todos os procedimentos técnicos poéticos das vanguardas européias. Nesse sentido, buscaram atualizar as questões da literatura, da arte, da música e, ao mesmo tempo, resgatar elementos da tradição popular brasileira. Isso deu origem a uma cultura ambígua que expressava cosmopolitismo por um lado, fruto de uma modernização crescente, fruto da industrialização, fruto da presença de imigrantes na sociedade brasileira; por outro lado, expressava também o resgate das tradições populares especialmente das classes que durante muito tempo não figuravam naquilo que se poderia chamar de cultura brasileira. Trata-se então de um país que incorpora a cultura européia mas que tem uma cultura, traços culturais diferentes, variados, múltiplos e que produz algo novo. Talvez a expressão mais bem acabada disso tenha sido a Antropofagia."

Nélson Schapochnik
historiador


Desenvolvimento econômico e produção cultural

Nas décadas seguintes, sobretudo a partir dos anos 40, o país viu crescerem as atividades de pesquisa e a formação de mão-de-obra qualificada nas universidades. Ao mesmo tempo, a classe média brasileira embarcava com tudo na ideologia do consumo. Foi durante o governo de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961, que se firmou no Brasil a convicção de que o progresso dependia do desenvolvimento industrial. O Plano Nacional de Desenvolvimento de Juscelino tinha o slogan "Cinqüenta Anos em Cinco", propondo a realização, em cinco anos, de um trabalho de meio século. No governo JK, as indústrias básicas, que produziam alimentos, máquinas e peças, expandiram seus negócios. A produção industrial teve um crescimento de 80 por cento. Para viabilizar a produção de energia, fundamental para o desenvolvimento, foram construídas grandes obras, como as hidrelétricas de Furnas e Três Marias, em Minas Gerais. Além disso, o mercado brasileiro se abriu para as montadoras de automóveis, como a Ford, a General Motors e a Volkswagen.
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Brasília: iniciativa de agrado geral
JK procurava um símbolo para marcar e consolidar a nova fase industrial do Brasil, a obra máxima de seu governo. Começava o projeto da construção de Brasília, inaugurada em abril de 1960. Curiosamente, a idéia da nova capital, uma cidade moderna e planejada em pleno sertão, agradou à esquerda e à direita brasileiras.


João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes... A Bossa Nova

As mudanças nos grandes centros urbanos tiveram reflexos nas artes, na ciência e na tecnologia. Enfim, na produção cultural do país. O aumento da população economicamente ativa criou condições para o desenvolvimento comercial do teatro, do cinema e da música. Foi assim que, no final dos anos 50, surgiu a bossa nova, com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, entre outros. Eles beberam na fonte de músicos como Pixinguinha, Noel Rosa, Ari Barroso, Lamartine Babo e Villa-Lobos. Reunidos em sessões musicais na casa da cantora Nara Leão, no Rio de Janeiro, os criadores da bossa nova identificavam-se com os grandes sambistas cariocas. Ao mesmo tempo, dialogavam com as formas do jazz produzido nas grandes cidades dos Estados Unidos, como Chicago e Nova York.


Teatro e cinema: efervescência

No teatro, Nélson Rodrigues escandalizava ao retratar a hipocrisia e os conflitos da classe média urbana típica, angustiada por problemas materiais e incertezas existenciais. O estilo direto e ferino do dramaturgo chocava-se com os valores tradicionais da sociedade. No cinema, a produtora Atlântida adotou a fórmula da chanchada, inspirada na receita de sucesso de Hollywood. Outra produtora, a Vera Cruz, lançou-se a uma vertente mais séria, produzindo filmes com um conteúdo mais elaborado e dentro dos padrões industriais do cinema americano.
Um fato muito significativo do cinema na época foi o surgimento do Cinema Novo, com o filme "Rio 40 Graus", de 1955, dirigido por Nélson Pereira dos Santos. O baiano Gláuber Rocha, também um expoente do Cinema Novo, colocou nas telas os problemas do sertão no filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", realizado em 1964. IMAGEM
Gláuber: nova estética no cinema
O Cinema Novo retomou em parte a discussão levantada pela Semana de Arte Moderna de 1922. Ele se preocupava com o Brasil, com as origens e com o futuro da cultura e da arte do país, num mundo cada vez mais industrializado e dividido em torno de temas globais, como o capitalismo e o comunismo. "Uma idéia na cabeça, uma câmera na mão": a célebre frase de Gláuber resumia a preocupação estética do Cinema Novo. Ao mesmo tempo em que questionavam esquemas hollywoodianos de superprodução, os cineastas procuravam retratar o Brasil através de uma estética despojada mas com sofisticação de linguagem.


Num mundo em transformação, medo do comunismo

No início dos anos 60, o país estava em processo de transformação, em todos os sentidos. Brasília prometia a modernidade, as grandes cidades estavam mudadas e a arte buscava novos caminhos. No dia-a-dia, a presença cultural norte-americana se multiplicava por todos os lados: na grande indústria, nos arranha-céus, na publicidade, nas roupas, no cinema. Com a grande concentração de operários nas cidades, surgiu o receio de movimentos trabalhistas e sindicais.

A Casa Branca passou a se preocupar com possíveis levantes comunistas na América Latina, a exemplo do que ocorreu em Cuba em 1959. A mesma preocupação da burguesia e da classe média brasileiras. O clima de insegurança no Brasil aumentou com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, em circunstâncias nunca inteiramente esclarecidas. O trabalhista João Goulart, o Jango, vice de Jânio, assumiu a presidência em setembro de 61, em meio a ameaças de golpes e contragolpes de Estado. Os militares não queriam um governo identificado com a estrutura sindical herdada de Getúlio Vargas. Se Jango nada tinha a ver com o comunismo, o receio dos militares era de que o trabalhismo aproveitasse a oportunidade para uma ofensiva. Foi o que aconteceu. As greves se multiplicaram.

Em 62, a Confederação Nacional dos Trabalhadores e o Pacto de Unidade e Ação convocaram uma greve geral, reivindicando um ministério progressista e comprometido com os interesses nacionais. A influência das esquerdas sobre o movimento causava ainda mais inquietação nas Forças Armadas. No Rio de Janeiro, grupos de mães, profissionais liberais e oposicionistas em geral do governo organizaram um comício contra as reformas de base de Jango. Em São Paulo foi organizado um movimento semelhante, a "Marcha da Família Com Deus Pela Liberdade". Era o sinal que os militares aguardavam para o golpe de Estado.

Continua